Aconteceu numa noite muito fria e
intensa de inverno de 1982. Já passava das vinte e uma horas. Sobre o povoado
de Três Irmãos, em Praia Grande, SC, caía uma das piores tempestades já sofrida
ate então, estendendo-se por toda a região. Próximo dali bem no meio de um
matagal nativo havia uma pequena chácara. E ali vivia uma família de
agricultores. Eram sete pessoas. Albertina a mãe, Antônio o pai. E seus cinco
filhos. Airton de quinze anos, Nestor de treze, Marcia de seis, Mariana de oito
e Rozilda de 11 anos. A propriedade consistia de uma velha casa de madeira já
bastante escurecida por causa do tempo. Havia também um pequeno celeiro, dois
galinheiros, um chiqueiro e uma horta fechada com cerca de juruva. Nessa horta
eles plantavam legumes, verduras e ervas medicinal. E a esquerda da casa ficava
um potreiro onde descansavam umas reses. Consistiam em três vacas leiteiras,
alguns terneiros e quatro bois adultos muito bons que eram botados nas lidas do
campo e também no famoso carro de boi. Sempre que dois deles trabalhavam, os
outros dois repousavam. Sempre foi assim.
No interior da casa encontrar-se
às três filhas pequenas a espera de seus pais que ainda não haviam retornado da
roça. Nem os irmãos mais velhos que tinham ido à tarde para a casa do avô
Setembrino também haviam voltado. Elas resolveram ficar na cozinha sentada à
volta do passadio. Tinham colocado duas pixiricas para clarear aquele
compartimento da casa. Mas, o vento soprava entre as tabuas aumentando o pânico
nas três que tentavam manter as chamas acesas botando as mãos na frente do
vento na intenção de bloqueá-lo.
Infelizmente seus pais ainda não haviam instalado a energia elétrica
devido ao alto custo naquele tempo pra trazer postes até a chácara que ficava
apartada pouco menos de novecentos metros da estrada geral. Apenas o povo da
zona urbana possuía o aparato de ter energia elétrica em suas casas. Mas os
ruralistas eram desamparados desses serviços públicos e dependiam unicamente de
lampiões, pixiricas, lanternas e velas.
Igual ao vento, os relampejos
adentravam nos cômodos da casa pelas frestas tornando dia por milésimo de
segundos aquela noite fria e escura. Os lampejos embaraçavam a mente das
crianças fazendo-as ter visões de figuras assustadoras nos espaços escuros da
cozinha. O assovio do vento e sua força batendo nas aberturas e nas tesouras do
telhado que se estalavam sem parar, às deixavam inertes de pavor. Mariana, a
menor, era a mais assustada. Tudo o que ela colocava os olhos parecia mover-se.
Para ela tudo era real. Mas talvez fosse sua imaginação lhe pregando peça. A
única alternativa que tinha era esconder seu rosto atrás do ombro de Mariana
que igual ela também fechava os olhos de medo. Sentadas em suas cadeiras,
prestavam atenção para a porta na esperança de que seus pais chegar a qualquer
momento.
O SUSTO...
Em meio aos ruídos da tempestade,
inesperadamente elas escutam pancadas violentas na porta como que se alguém
quisesse escapar da chuva. A primeira coisa que veio a cabeça delas era que
seus pais haviam chegado enfim, apesar de não terem ouvido vozes.
– Abre a porta que é a mãe e o
pai! –disse a caçula.
−Você abre a porta! – exigiu a
irmã mais velha que gostava muito de mandar nas duas.
Sem reclamar, Marcia desceu da
sua cadeira e se dirigiu à porta enquanto que suas irmãs continuaram sentadas a
observá-la. Depois de abrir a porta, Marcia não vê ninguém a não ser a grande
pedra ferro que fica do lado de fora servindo de degrau. Achou que se tratava
das garotices de seus irmãos. Então ela esticou o pescoço para fora da porta olhando
em todas as direções a fim de avistá-los, mas foi em vão. De repente um
relâmpago colossal ilumina àquela parte externa da casa revelando a menos de
dois metros dela uma perna gigante e único pé com unhas horríveis na cor de
carmim. Travada de medo ela acabou urinando na roupa. Não conseguia se mover de
terror. A irmã mais velha suspeitou da situação, pois a caçula estava
paralisada e não saia da porta. E como nenhuma pessoa entrou ela foi ver então
o que estava acontecendo. Ao aproximar-se do lado da irmã levou o maior susto
ao ver lá fora aquela coisa. Aos gritos puxou sua irmã pelo braço e
ligeiramente fechou a porta com a única tramela. Pegou a outra que estava na
cadeira em volta da mesa e correram para dentro do quartinho onde seus irmãos
sempre dormem. Pularam em cima da cama e se esconderam debaixo do acolchoado.
Ali permaneceram cada uma mais apavorada que a outra. Choravam e não paravam de
tremer de medo. Cada trovão, todos os relampejos e ruídos as deixavam mais
apavoradas.
- Que abuso! E a mãe que não vem!
- Disse a caçula abraçada nas irmãs.
Minutos depois alguém bate na
porta. Elas ficaram em pânico. Pois, só ouviam batidas. Mas, em seguida um dos
irmãos pede pra abrirem a porta.
Reconhecendo a voz de um deles
novamente Marcia corre pra abrir a porta. Assim que entraram na casa as duas
sai do quarto e vão pra cozinha e relatam o que viram lá fora. Os dois
imediatamente se equipam com porretes e dão uma volta na casa. Mas não
avistaram nada. E retornaram para dentro. Enxugaram-se, pois estavam os dois
totalmente ensopados da chuva. Logo em seguida ouviram o som da roda do carro
de boi entrando propriedade à dentro. Aquele silvo era evidente para eles de
que se tratava realmente de seus pais chegando. Minutos depois eles apeiam do
carro em frente ao galpão e ali a sua mãe aguarda o seu pai descangar a parelha
de boi e os leva-lo ate o potreiro.
Pouco tempo depois ambos entraram em casa. Logo em seguida foram
surpreendidos com os fatos contados pelas crianças ainda assustadas. Depois de
ouvir as filhas o pai não pensou duas vezes em acreditar nelas. Em seguida deu
uma bronca nos garotos por se saírem de casa o dia todo. Mesmo assim o pai
tolerou as justificativas dos rapazes apenas desta vez. Mas, os proibiu de
abandonar suas irmãs outra vez. Depois de por os pingos nos ís nas coisas
prometeu a si próprio que não ficaria no trabalho ate tarde a parti daquela
noite. E assim o cumpriu. As crianças nunca mais ficaram sozinhas. Pretexto?
Seu pai e sua mãe também viam coisas.
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