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segunda-feira, 6 de julho de 2015

O MAL À ESPREITA

Aconteceu numa noite muito fria e intensa de inverno de 1982. Já passava das vinte e uma horas. Sobre o povoado de Três Irmãos, em Praia Grande, SC, caía uma das piores tempestades já sofrida ate então, estendendo-se por toda a região. Próximo dali bem no meio de um matagal nativo havia uma pequena chácara. E ali vivia uma família de agricultores. Eram sete pessoas. Albertina a mãe, Antônio o pai. E seus cinco filhos. Airton de quinze anos, Nestor de treze, Marcia de seis, Mariana de oito e Rozilda de 11 anos. A propriedade consistia de uma velha casa de madeira já bastante escurecida por causa do tempo. Havia também um pequeno celeiro, dois galinheiros, um chiqueiro e uma horta fechada com cerca de juruva. Nessa horta eles plantavam legumes, verduras e ervas medicinal. E a esquerda da casa ficava um potreiro onde descansavam umas reses. Consistiam em três vacas leiteiras, alguns terneiros e quatro bois adultos muito bons que eram botados nas lidas do campo e também no famoso carro de boi. Sempre que dois deles trabalhavam, os outros dois repousavam. Sempre foi assim.
No interior da casa encontrar-se às três filhas pequenas a espera de seus pais que ainda não haviam retornado da roça. Nem os irmãos mais velhos que tinham ido à tarde para a casa do avô Setembrino também haviam voltado. Elas resolveram ficar na cozinha sentada à volta do passadio. Tinham colocado duas pixiricas para clarear aquele compartimento da casa. Mas, o vento soprava entre as tabuas aumentando o pânico nas três que tentavam manter as chamas acesas botando as mãos na frente do vento na intenção de bloqueá-lo.  Infelizmente seus pais ainda não haviam instalado a energia elétrica devido ao alto custo naquele tempo pra trazer postes até a chácara que ficava apartada pouco menos de novecentos metros da estrada geral. Apenas o povo da zona urbana possuía o aparato de ter energia elétrica em suas casas. Mas os ruralistas eram desamparados desses serviços públicos e dependiam unicamente de lampiões, pixiricas, lanternas e velas.
Igual ao vento, os relampejos adentravam nos cômodos da casa pelas frestas tornando dia por milésimo de segundos aquela noite fria e escura. Os lampejos embaraçavam a mente das crianças fazendo-as ter visões de figuras assustadoras nos espaços escuros da cozinha. O assovio do vento e sua força batendo nas aberturas e nas tesouras do telhado que se estalavam sem parar, às deixavam inertes de pavor. Mariana, a menor, era a mais assustada. Tudo o que ela colocava os olhos parecia mover-se. Para ela tudo era real. Mas talvez fosse sua imaginação lhe pregando peça. A única alternativa que tinha era esconder seu rosto atrás do ombro de Mariana que igual ela também fechava os olhos de medo. Sentadas em suas cadeiras, prestavam atenção para a porta na esperança de que seus pais chegar a qualquer momento.
O SUSTO...
Em meio aos ruídos da tempestade, inesperadamente elas escutam pancadas violentas na porta como que se alguém quisesse escapar da chuva. A primeira coisa que veio a cabeça delas era que seus pais haviam chegado enfim, apesar de não terem ouvido vozes.
– Abre a porta que é a mãe e o pai! –disse a caçula.
−Você abre a porta! – exigiu a irmã mais velha que gostava muito de mandar nas duas.
Sem reclamar, Marcia desceu da sua cadeira e se dirigiu à porta enquanto que suas irmãs continuaram sentadas a observá-la. Depois de abrir a porta, Marcia não vê ninguém a não ser a grande pedra ferro que fica do lado de fora servindo de degrau. Achou que se tratava das garotices de seus irmãos. Então ela esticou o pescoço para fora da porta olhando em todas as direções a fim de avistá-los, mas foi em vão. De repente um relâmpago colossal ilumina àquela parte externa da casa revelando a menos de dois metros dela uma perna gigante e único pé com unhas horríveis na cor de carmim. Travada de medo ela acabou urinando na roupa. Não conseguia se mover de terror. A irmã mais velha suspeitou da situação, pois a caçula estava paralisada e não saia da porta. E como nenhuma pessoa entrou ela foi ver então o que estava acontecendo. Ao aproximar-se do lado da irmã levou o maior susto ao ver lá fora aquela coisa. Aos gritos puxou sua irmã pelo braço e ligeiramente fechou a porta com a única tramela. Pegou a outra que estava na cadeira em volta da mesa e correram para dentro do quartinho onde seus irmãos sempre dormem. Pularam em cima da cama e se esconderam debaixo do acolchoado. Ali permaneceram cada uma mais apavorada que a outra. Choravam e não paravam de tremer de medo. Cada trovão, todos os relampejos e ruídos as deixavam mais apavoradas.
- Que abuso! E a mãe que não vem! - Disse a caçula abraçada nas irmãs.
Minutos depois alguém bate na porta. Elas ficaram em pânico. Pois, só ouviam batidas. Mas, em seguida um dos irmãos pede pra abrirem a porta.


Reconhecendo a voz de um deles novamente Marcia corre pra abrir a porta. Assim que entraram na casa as duas sai do quarto e vão pra cozinha e relatam o que viram lá fora. Os dois imediatamente se equipam com porretes e dão uma volta na casa. Mas não avistaram nada. E retornaram para dentro. Enxugaram-se, pois estavam os dois totalmente ensopados da chuva. Logo em seguida ouviram o som da roda do carro de boi entrando propriedade à dentro. Aquele silvo era evidente para eles de que se tratava realmente de seus pais chegando. Minutos depois eles apeiam do carro em frente ao galpão e ali a sua mãe aguarda o seu pai descangar a parelha de boi e os leva-lo ate o potreiro.  Pouco tempo depois ambos entraram em casa. Logo em seguida foram surpreendidos com os fatos contados pelas crianças ainda assustadas. Depois de ouvir as filhas o pai não pensou duas vezes em acreditar nelas. Em seguida deu uma bronca nos garotos por se saírem de casa o dia todo. Mesmo assim o pai tolerou as justificativas dos rapazes apenas desta vez. Mas, os proibiu de abandonar suas irmãs outra vez. Depois de por os pingos nos ís nas coisas prometeu a si próprio que não ficaria no trabalho ate tarde a parti daquela noite. E assim o cumpriu. As crianças nunca mais ficaram sozinhas. Pretexto? Seu pai e sua mãe também viam coisas.  

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