Um pecuarista conta história de vida de um boi que, ao ser
solto no meio da invernada, veio lamber-lhe a mão. A história que segue, narra a história de vida do boi
desde seu nascimento até o dia de seu abate.
Logo que nasci, conheci o meu maior inimigo. Eu fui posto no
chão, vi a minha mãe aflita ser tocada para longe e sofri um incômodo ardido no
umbigo.
Com poucas semanas de idade, tive a minha cara queimada e
uma parte da minha orelha aparada. Era tangido de lá pra cá e daqui pra lá, sem
entender direito aquela movimentação, que, para mim, parecia desnecessária.
Quando pensava em alçar meus primeiros passos de
independência, minha mãe sumiu. Levaram-na para tão longe que nunca mais a vi e
nem tive notícias.
Ao aflorar a adolescência, com os hormônios à flor da pele,
fui tocado ao curral, no que parecia uma nova movimentação injustificável. Mas,
coitado de mim, eu não poderia prever que sentiria uma dor tão intensa e que
viria incomodar-me por tantos dias.
Enfim, as coisas pareciam melhorar. Eu ocupava as mais
suculentas pastagens da fazenda, onde anteriormente só era permitida a entrada
dos meus irmãos mais velhos, que ali ficavam algum tempo e, depois,
misteriosamente sumiam do alcance das minhas vistas.
As coisas pareciam estar tão boas e consegui até acumular
alguns quilos a mais. O meu inimigo passava por perto, esboçava alguns
sorrisos, porém não nos incomodava. Cheguei até a pensar que poderíamos vir a
ser bons amigos, pois a calmaria era tamanha que podia me aproximar, chegar bem
perto e até cheirar sua mão.
Um dia, bem de manhãzinha, surgiu na colina um comboio de
caminhões. Isto não era tão comum, acontecia mais ou menos de mês em mês. Neste
dia, percebi que vinha vindo em nossa direção um “punhado” dos nossos antigos
inimigos, porém desta vez sem a preocupação de não nos incomodar. Eles nos
cercaram e nos conduziram até o curral.
Neste dia a gritaria e a agitação eram inéditas. Uma
multidão de inimigos estava presente no mangueiro. Uns tocavam, outros
gritavam, abriam e fechavam porteiras, sempre nos conduzindo em direção aos
caminhões. Até na entrada da carroceria uma movimentação intensa, mas quase
normal, não fosse um cutucãozinho repentino e dolorido que nos fazia pular
gaiola adentro.
Saímos da fazenda e viajamos muito, por caminhos nunca antes
percorridos. Comecei a entender para onde meus irmãos mais velhos eram levados
e fiquei ansioso para revê-los.
Após muitos quilômetros de estradas, chegamos num enorme
curralão, com construções grandiosas ao redor. Sentia-me apreensivo pela
oportunidade de rever meus antigos conterrâneos, mas só via outros animais, tão
impressionados e perdidos quanto nós.
Passou o resto do dia. Na madrugada seguinte, com céu
estrelado, uma chuva misteriosa caiu sobre nossos lombos, porteiras se abriram
e ouviam-se gritos. Um inimigo solitário nos conduzia em direção a uma rampa
assustadora. Subimos a rampa empurrados uns pelos outros e vez em quando
cutucados pela varinha dolorosa. Finalmente cheguei ao fim do corredor, não
havia mais para onde ir, nem mesmo o que fazer. Só recordo-me de meu inimigo
aproximar-se e eu pensar poder lamber-lhe a mão.
Bom, agora, aqui onde estou, só tenho duas certezas: ter
cumprido minha sina e não mais ser incomodado pelo inimigo. Porém queria que me
fosse permitido um último pedido. Pediria que as pessoas que colhem benefícios
à custa da nossa saga, que nos tratem com respeito e decência, pois o boi tange
a vida de muita gente.
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