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terça-feira, 7 de julho de 2015

FOI UM BOI QUE ME CONTOU

Um pecuarista conta história de vida de um boi que, ao ser solto no meio da invernada, veio lamber-lhe a mão. A história que segue, narra a história de vida do boi desde seu nascimento até o dia de seu abate.
Logo que nasci, conheci o meu maior inimigo. Eu fui posto no chão, vi a minha mãe aflita ser tocada para longe e sofri um incômodo ardido no umbigo.
Com poucas semanas de idade, tive a minha cara queimada e uma parte da minha orelha aparada. Era tangido de lá pra cá e daqui pra lá, sem entender direito aquela movimentação, que, para mim, parecia desnecessária.
Quando pensava em alçar meus primeiros passos de independência, minha mãe sumiu. Levaram-na para tão longe que nunca mais a vi e nem tive notícias.
Ao aflorar a adolescência, com os hormônios à flor da pele, fui tocado ao curral, no que parecia uma nova movimentação injustificável. Mas, coitado de mim, eu não poderia prever que sentiria uma dor tão intensa e que viria incomodar-me por tantos dias.
Enfim, as coisas pareciam melhorar. Eu ocupava as mais suculentas pastagens da fazenda, onde anteriormente só era permitida a entrada dos meus irmãos mais velhos, que ali ficavam algum tempo e, depois, misteriosamente sumiam do alcance das minhas vistas.
As coisas pareciam estar tão boas e consegui até acumular alguns quilos a mais. O meu inimigo passava por perto, esboçava alguns sorrisos, porém não nos incomodava. Cheguei até a pensar que poderíamos vir a ser bons amigos, pois a calmaria era tamanha que podia me aproximar, chegar bem perto e até cheirar sua mão.
Um dia, bem de manhãzinha, surgiu na colina um comboio de caminhões. Isto não era tão comum, acontecia mais ou menos de mês em mês. Neste dia, percebi que vinha vindo em nossa direção um “punhado” dos nossos antigos inimigos, porém desta vez sem a preocupação de não nos incomodar. Eles nos cercaram e nos conduziram até o curral.
Neste dia a gritaria e a agitação eram inéditas. Uma multidão de inimigos estava presente no mangueiro. Uns tocavam, outros gritavam, abriam e fechavam porteiras, sempre nos conduzindo em direção aos caminhões. Até na entrada da carroceria uma movimentação intensa, mas quase normal, não fosse um cutucãozinho repentino e dolorido que nos fazia pular gaiola adentro.
Saímos da fazenda e viajamos muito, por caminhos nunca antes percorridos. Comecei a entender para onde meus irmãos mais velhos eram levados e fiquei ansioso para revê-los.
Após muitos quilômetros de estradas, chegamos num enorme curralão, com construções grandiosas ao redor. Sentia-me apreensivo pela oportunidade de rever meus antigos conterrâneos, mas só via outros animais, tão impressionados e perdidos quanto nós.
Passou o resto do dia. Na madrugada seguinte, com céu estrelado, uma chuva misteriosa caiu sobre nossos lombos, porteiras se abriram e ouviam-se gritos. Um inimigo solitário nos conduzia em direção a uma rampa assustadora. Subimos a rampa empurrados uns pelos outros e vez em quando cutucados pela varinha dolorosa. Finalmente cheguei ao fim do corredor, não havia mais para onde ir, nem mesmo o que fazer. Só recordo-me de meu inimigo aproximar-se e eu pensar poder lamber-lhe a mão.
Bom, agora, aqui onde estou, só tenho duas certezas: ter cumprido minha sina e não mais ser incomodado pelo inimigo. Porém queria que me fosse permitido um último pedido. Pediria que as pessoas que colhem benefícios à custa da nossa saga, que nos tratem com respeito e decência, pois o boi tange a vida de muita gente.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

UM FANTASMA NO GALPÃO

Faltavam dois dias pra chegar o natal de 2014. A noite estava sombria e muito quente. Numa pequena casa de alvenaria a beira da estrada geral em Praia Grande, uma via de chão batido, a mãe havia acabado de lavar a roupa de seu filho adolescente e colocado num balde pra estender no galpão mais depois, pois seu filho iria passar aquele natal com o pai. Ela por tanto iria passar na casa de uma amiga pra não ficar sozinha. Por um lado ela encontrar-se um pouco triste com a situação, mas não queria demonstrar ao filho. Porque não queria estragar os planos dele de passar horas bacanas ao lado do pai que mal via.
Ela produzia pé de moleques e cocadas e algumas vezes trufas e vendia o dia inteiro na rua e só voltava pra casa quando já estava noite, e ele a recém havia iniciado a trabalhar na colheita de maracujá pra um agricultor em São João do Sul. Estava ele muito feliz por ter conseguido aquele trabalho assim perto do natal. Pelo menos teria seu próprio dinheiro. Ela estava orgulhosa do filho e tanto ela quanto o filho somente à noite lhes sobravam um pouco de tempo pra fazer suas coisas. Ainda bem que ela havia comprado com muito suor uma máquina de lavar que também possuía centrifuga. Isso era muito útil e rápido pra eles.
De repente o celular da mulher toca. Ela atende, trata-se de seu amigo de Porto Alegre. Durante sua conversa com o amigo ela comenta o que estava fazendo e por meio de risos diz não levaria a roupa pra estender no galpão porque lá ela já havia escutado ruídos estranhos. Então a missão seria transferida para o filho já que o rapaz pedia muito pela roupa limpa. Seu filho escutou a conversa sem querer e ficou um pouco bravo, mas como ele não acreditava nessas superstições iria sem nenhum problema. Porém, como ele estava em seu quarto no notebook iria mais tarde. A mulher e o amigo conversaram por quarenta minutos e depois se despedem.
Em seguida avisa o filho pra que ele estendesse no galpão, pois é o único local coberto que tinha varal e não pegava sereno. Em seguida ela vai para seu quarto se deitar, pois já era mais de vinte e duas horas e tinha que se acordar cedo.
Minutos depois o rapaz sai de seu quarto pra estender a roupa. Como estava muito escuro à noite lá fora, o rapaz levou o celular junto pra iluminar a trilha que dava para o galpão. Numa das mãos levava o balde e na outra o celular ligado.
Minutos depois seu filho entra quarto à dentro da mãe com o rosco branco de pavor. Ela ficou espantada com sua rapidez. Mas antes que ela falasse alguma coisa ele articula ”Eu vi uma coisa!”. Ela não entendeu direito e lhe perguntou: “O que tu viste meu filho?”. Mas ele relutou em responder dizendo “Deixa quieto Deixa quieto! Amanhã eu falo!”. Depois disso ele estendeu a roupa ali mesmo na cozinha sobre as cadeiras da mesa.
 Na manha seguinte, mais calmo, o garoto durante o café lhe disse que assim que saiu pela porta dos fundos da casa e seguiu pela trilha que dava para o galpão ao lado da casa de sua avó, leva o maior susto ao ascender à lâmpada, ele fica dá de cara com um velho, que estava sentado num tronco que servia de banco na propriedade. Ele era corcova e muito magro. O pânico foi maior ainda quando esse velho volta o rosto para ele. O guri escapa de lá muito depressa e trava a porta ao entrar em casa.
Depois de ouvir as declarações do filho, a mulher fica completamente chocada, pois eram as mesmas características de seu avô falecido a mais de vinte anos.  Ele adorava aquela parte da propriedade. O tal galpão.

Fim.

O OURO SEM BRILHO

Numa certa manha de inverno, isso por volta de 1983, um homem ganancioso por si só depois de ficar sabendo que numa deliberada parte das terras de um conhecido seu, na epoca da guerra do contestado os jesuitas haviam escondido ouro. Doido pra procurar o tal ouro, decidiu alugar uma retro escavadeira . Depois de quase uma hora fazendo buracos aqui e ali naquelas terras finalmente ele havia descoberto algo que seria uma panela de argila. Após apanhar com a concha o tal objeto com todo o cuidado, o homem percebeu que era um pouco maior do que uma panela de pressão com cerca de quatro ou cinco quilos de peso.
Então, depois de descer da maqucom uma marreta, golpeou a parte de cima que parecia uma tampa. De repente veio um brilho indescritivel de dentro da panela! Era o ouro brilhando. Tratava-se de moedas, taças e joias que brilhavam lindamente ofuscando os olhos do homem que ate então nunca havia visto algo assim a não ser dos filmes de caça tesouros. Euforico olhou para todos os lados pra se certificar que estava sozinho ali. Colocou tudo dentro de um saco de lynon e levou para cima da cabina da retro e mais que depressa fechou os buracos de volta. Ele sabia que as terras não eram dele e poderia ter problemas com isso.
Depois de tapar tudo de volta ele não resistiu e abriu o saco para dar mais uma olhadinha naquele brilho lindo, que enleava os olhos e acelerava o seu coração. Depois que satisfez um pouco de sua curiosidade mais que depressa. Assim que isso aconteceu deu a partida na retro e foi embora pra casa as pressas.
Naquela tarde ele chegou em casa e escondeu aquele ouro bem escondido no paiol da propriedade para que ninguem de sua familia encontrasse. E em seguida seu filho o seguiu de carro enquanto ele dirigia a retro escavadeira ate a empresa de terra planagem devolve-la e certar a locação.

Quando voltaram de lá passaram num posto de gasolina para completar o tanque. Seu filho ate então não havia desconfiado de nada.  Mas percebeu que seu pai estava feliz demais. Mas achou normal.
Quando chegaram em casa, o homem deu algumas tarefas para seu filho e mais o outro filho, pois dessa forma ele ficaria sozinho já que sua esposa mal saía das tarefas da casa.
Ele se certificando que estava sozinho e seguro de não ser descoberto pegou o saco e levou ate o rio e ali resolveu lavar aquele ouro e se disfazer do resto do corpo da panela. Assim que aprontou tudo, o homem guardou  o tesouro num saco de lynon mais limpo e novo e levou para o porta malas do carro. Pra encobrir, aproveitou pra lavar o carro por fora. Se tratava de um Corcel II LDO 1.6, vermelho, ano 1980 e estava todo empoeirado. Ao chegar em casa pegou e enrolou um arame galvanizado na boca da bolsa de lynon e escondeu no forro do galpão. Decidiu então viajar na manha seguinte a fim de vende-lo na cidade de Porto Alegre. Durante o jantar ele disse que tinha que ir a Porto Alegre a negocio. Todos a volta da mesa ficaram surpresos com a noticia. Mas, nem quiseram entrar em detalhes, pois já sabiam que o homem não era muito de falar e sim de fazer.
Todos então depois do jantar foram dormir. Mas o homem passou a noite em claro. Sua noite foi pessima. Não havia dormido nada, pois fora perseguidos por pesadelos inesxplicaveis que envolviam ouro e guerras sangrentas.
Quando amanheceu ele já havia levantado da cama a muito tempo e já tinha ate mesmo levado o saco do ouro para o porta malas do Corcel e preparado um café para todos. Bebeu seu café e deixou um bilhete na cozinha avisando que tinha que ir logo mas que voltaria antes do anoitecer.
Ele então ainda de farol acesso saiu da propriedade em direção a estrada geral. Assim que atingiu a estrada geral, em questao de minutos atingiu a saída de Praia Grande, pela SC 405. Nessa altura  já havia amanhecido. Pode observar quepara os lados da serra, muitas nuvens e o prenúncio de chuva pesada. Da janela do veículo, podia ver o gado pastando e as garças calmamente procurando sua refeição.
Cerca de vinte minutos depois já havia passado por São João do sul e atingido a BR 101. Não levou muito e a chuva chegou, forte.
Aquele homem estava completamente euforico de felicidade, pois depois de vender ficaria milhonario. Poderia realizar os tantos sonhos que sempre teve. Conhecer os Estados Unidos, a Itália, a França e comprar mais terras, mas não ali, e sim no Uruguai. Encontrar-se paranoico. Andava a 110 km por hora com o carro, onde o limite era 80. Deixou um extenso fluxo de caminhões para trás. Só pôs combustivel quando chegou em Osorio no posto Ganso. Da li em diante a estrada ficou boa, a BR 290 também conhecida por “Free Way”, pouco movimentada e com uma bela paisagem.
Quando chegou em Porto Alegre por volta das dez e meia, na movimentada avenida Mauá, o motor do carro fervia. Acessou a rua Marechal Floriano, estacionando na Otávio Rocha. Ele conhecia bem aquela parte da cidade.  Ao desembarcar, pegou o saco de ouro no porta molas. Como não podia abrir em público aquele saco pra conferir se o ouro não tinha fugido, ele apalpou por fora mesmo e viu que as voltas de arame estavam do mesmo jeito que havia enrolado, satisfeito bateu o porta molas e seguiu assoviando feliz da vida ate a galeria do Rosario, na subida da Vigário José Inácio.  No terceiro andar ele foi atendido pelo dono do comercio. Depois de explicar o que vinhera fazer ali, sobre o balcão ele calcançou a mercadoria ao atendente que começou em sua frente a desenrolar a boca da bolsa. O comprador não fugiu da vista do homem. De repente quando finalmente ele are a bolsa ele arrega-la os olhos e pergunta:
- Mas o que é isso?
- Impressionante não é? – disse o homem com um largo sorriso nos labios.
-Isso é algum tipo de brincadeira meu senhor? – perguntou  o comerciante um tanto aborrecido.
- Não. Isso aí no saco é ouro puro! – respondeu o homem sem entender a reação do comerciante.
- Esse teu ouro tá sem brilho kkkkkk!- Disse o comerciante interpretando como uma brincadeira a situação.
Quando o homem olhou para dentro do saco, haviam pedras no lugar do ouro...

Fim.

UM LOBISOMEM NA ESTRADA GERAL


No inicio da madrugada de uma sexta feira de lua cheia, um rapaz que farreava com os amigos num bar como o de costume, nem havia se dado conta de que já passava da meia noite. Preocupado olha no relógio e então resolve se despedir dos amigos bodegueiros e apanha a sua bicicleta que está nos fundos do boteco para ir pra casa. Ele morava longe do centro de Praia Grande, rodeia cerca de uns seis quilômetros. Pela “Estrada Geral”, tinha que pedalar muito ate sua morada. Mas o rapaz estava um pouco embriagado por conta das pingas com os amigos durante as partidas de pife. A noite estava bastante clara por causa da lua cheia. E a estrada completamente solitária. Não passava um veículo sequer naquela noite. Ate aí tudo bem. Mas, olhando aquela luz suntuosa que o escoltava, de repente o rapaz passou a se lembrar dos causos de lobisomem que seu avô contava a beira do fogão a lenha nos tempos de quando era criança. Aquelas lembranças fizeram com que um frio invadisse sua coluna vertebral. Angustiado em chegar a sua casa de uma vez, passa a pedalar mais rápido.
Instantes depois atinge uma pastagem. E com a luminosidade da lua ele podia ver o rebanho remastigando o pasto e também alguns cavalos que pastavam bem próximo da cerca de arame farpado que fazia demarcação com a estrada. Isso nos dois lados da estrada.
A cena era sinistra, pois no momento em que o rapaz corria velozmente com sua bicicleta, de maneira estranha, aqueles animais pararam o que estavam fazendo para observá-lo. Era um episódio arrepiador como se espíritos malignos tivessem os possuído naquele minuto, colocando mais pânico no rapaz. 
Até que ao longe ele avista a ponte. Um pouco aliviado acaba reduzindo as pedaladas, pois já estava perto de casa. Mas ele vê algo que parecia ser um novilho sobre a mesma. Pensou que talvez tivesse escapado dos campos, o que era comum ocorrer nas imediações.
Porém, quando se beirou um pouco mais da ponte, ao acessá-la, no instante seguinte pode ver melhor o que achava ser um novilho, o animal estava reclinado ao lado da mureta da ponte, que servia de proteção. Percebera que não se tratava de um terneiro, e sim uma criatura sombria e lanosa com olhos vermelhos feito gato no escuro. Tecnicamente falando, tinha a aparência de um lobo com orelhas pontudas que se esfregavam uma na outra.
Essa criatura ao ver o rapaz levantou-se e ficou de pé. Sua altura era a de um grande urso-pardo. Seu rosno era idêntica de um. Sendo um animal feroz foi em seu rumo. Sobre a bicicleta o rapaz por sua vez correu desesperadamente pela estrada em direção a sua casa. Mesmo sendo uma bicicleta sem marchas, jamais em sua vida tinha corrido tanto com sua bike como correu naquela noite.  
Sem olhar pra trás pedalou, pedalou e pedalou ate que finalmente consegue chegar a sua casa. Apeia da bike e como se fosse derrubar a porta ele começa a bater e chamar por sua mulher.
- Madalena abre a porta! Abre a porta ligeiro!
Assim que ele a chama desesperadamente, ela abre a porta. Ao entrar aterrorizado de medo ele tranca tudo e olha pela fresta da janela. Como não viu nada decide contar tudo o que tinha acontecido com ele na estrada. Depois de falar tudo achou estranha a atitude de sua esposa que se pôs a rir dele. Ela disse a ele:
- Tu não viste nada. Foi apenas fruto da tua imaginação por causa do álcool. Vai tomar um banho e ir dormir.
Mais calmo ele foi tomar um banho, pois estava cheirando a suor e álcool. Depois do banho foi se deitar e ali do lado da esposa ficou quieto ate adormecer.
Na manha seguinte com ressaca, bebeu um copo de café preto, pois tinha trabalho naquele dia. Logo depois, pegou a bicicleta que havia deixado jogada no pátio e se pôs a pedalar rumo à cidade. Ao passar pela ponte onde viu o lobisomem, decidiu parar. Empurrando a bicicleta ele se aproxima do local. Arregalou os olhos ao deparar-se com ranhuras profundas e longas no piso da ponte feito por garras cerca de algumas horas. Apavorado com a confirmação da existência de lobisomens, ele passou a refletir de que das outras vezes que voltou de madrugada pra casa não viu nada porque não era lua cheia. Ele sabia que as noites seguintes ainda iria ter lua cheia e a noite anterior tinha sido a primeira noite dessa fase. 
 Espantado e surpreso, foi trabalhar mesmo assim, pois precisava daquele emprego. Decidiu não contar pra seus amigos o que havia lhe acontecido. Guardou só pra ele.
Às dezessete horas, sai do trabalho e decide ir direto pra casa. A noite chegou e lá estava ele de banho tomado e deitado em sua cama. Enquanto isso, sua esposa assiste à sua novela, a qual não perdia um capitulo sequer.
Durante a madrugada ele se acorda com uivo vindo de bem longe. Apavorado olha ao seu lado a sua esposa está dormindo num sono profundo. Preocupado ele corre ate as portas e janelas pra ver se estão bem trancadas. Depois volta pra cama e se cobre com o cobertor deixando apenas os olhos e o nariz pra fora.
No dia seguinte. Um domingo. Ele vai até um minimercado na comunidade pra compra um frango assado para o almoço.
Depois daquele domingo O rapaz nunca mais voltou tarde da cidade. Seus amigos sentiram muito a sua falta. Ele nunca havia dito a eles a razão de seu afastamento. Dois mais tarde o casal decide se mudar para o Chile por causa de trabalho.

Fim.

O MAL À ESPREITA

Aconteceu numa noite muito fria e intensa de inverno de 1982. Já passava das vinte e uma horas. Sobre o povoado de Três Irmãos, em Praia Grande, SC, caía uma das piores tempestades já sofrida ate então, estendendo-se por toda a região. Próximo dali bem no meio de um matagal nativo havia uma pequena chácara. E ali vivia uma família de agricultores. Eram sete pessoas. Albertina a mãe, Antônio o pai. E seus cinco filhos. Airton de quinze anos, Nestor de treze, Marcia de seis, Mariana de oito e Rozilda de 11 anos. A propriedade consistia de uma velha casa de madeira já bastante escurecida por causa do tempo. Havia também um pequeno celeiro, dois galinheiros, um chiqueiro e uma horta fechada com cerca de juruva. Nessa horta eles plantavam legumes, verduras e ervas medicinal. E a esquerda da casa ficava um potreiro onde descansavam umas reses. Consistiam em três vacas leiteiras, alguns terneiros e quatro bois adultos muito bons que eram botados nas lidas do campo e também no famoso carro de boi. Sempre que dois deles trabalhavam, os outros dois repousavam. Sempre foi assim.
No interior da casa encontrar-se às três filhas pequenas a espera de seus pais que ainda não haviam retornado da roça. Nem os irmãos mais velhos que tinham ido à tarde para a casa do avô Setembrino também haviam voltado. Elas resolveram ficar na cozinha sentada à volta do passadio. Tinham colocado duas pixiricas para clarear aquele compartimento da casa. Mas, o vento soprava entre as tabuas aumentando o pânico nas três que tentavam manter as chamas acesas botando as mãos na frente do vento na intenção de bloqueá-lo.  Infelizmente seus pais ainda não haviam instalado a energia elétrica devido ao alto custo naquele tempo pra trazer postes até a chácara que ficava apartada pouco menos de novecentos metros da estrada geral. Apenas o povo da zona urbana possuía o aparato de ter energia elétrica em suas casas. Mas os ruralistas eram desamparados desses serviços públicos e dependiam unicamente de lampiões, pixiricas, lanternas e velas.
Igual ao vento, os relampejos adentravam nos cômodos da casa pelas frestas tornando dia por milésimo de segundos aquela noite fria e escura. Os lampejos embaraçavam a mente das crianças fazendo-as ter visões de figuras assustadoras nos espaços escuros da cozinha. O assovio do vento e sua força batendo nas aberturas e nas tesouras do telhado que se estalavam sem parar, às deixavam inertes de pavor. Mariana, a menor, era a mais assustada. Tudo o que ela colocava os olhos parecia mover-se. Para ela tudo era real. Mas talvez fosse sua imaginação lhe pregando peça. A única alternativa que tinha era esconder seu rosto atrás do ombro de Mariana que igual ela também fechava os olhos de medo. Sentadas em suas cadeiras, prestavam atenção para a porta na esperança de que seus pais chegar a qualquer momento.
O SUSTO...
Em meio aos ruídos da tempestade, inesperadamente elas escutam pancadas violentas na porta como que se alguém quisesse escapar da chuva. A primeira coisa que veio a cabeça delas era que seus pais haviam chegado enfim, apesar de não terem ouvido vozes.
– Abre a porta que é a mãe e o pai! –disse a caçula.
−Você abre a porta! – exigiu a irmã mais velha que gostava muito de mandar nas duas.
Sem reclamar, Marcia desceu da sua cadeira e se dirigiu à porta enquanto que suas irmãs continuaram sentadas a observá-la. Depois de abrir a porta, Marcia não vê ninguém a não ser a grande pedra ferro que fica do lado de fora servindo de degrau. Achou que se tratava das garotices de seus irmãos. Então ela esticou o pescoço para fora da porta olhando em todas as direções a fim de avistá-los, mas foi em vão. De repente um relâmpago colossal ilumina àquela parte externa da casa revelando a menos de dois metros dela uma perna gigante e único pé com unhas horríveis na cor de carmim. Travada de medo ela acabou urinando na roupa. Não conseguia se mover de terror. A irmã mais velha suspeitou da situação, pois a caçula estava paralisada e não saia da porta. E como nenhuma pessoa entrou ela foi ver então o que estava acontecendo. Ao aproximar-se do lado da irmã levou o maior susto ao ver lá fora aquela coisa. Aos gritos puxou sua irmã pelo braço e ligeiramente fechou a porta com a única tramela. Pegou a outra que estava na cadeira em volta da mesa e correram para dentro do quartinho onde seus irmãos sempre dormem. Pularam em cima da cama e se esconderam debaixo do acolchoado. Ali permaneceram cada uma mais apavorada que a outra. Choravam e não paravam de tremer de medo. Cada trovão, todos os relampejos e ruídos as deixavam mais apavoradas.
- Que abuso! E a mãe que não vem! - Disse a caçula abraçada nas irmãs.
Minutos depois alguém bate na porta. Elas ficaram em pânico. Pois, só ouviam batidas. Mas, em seguida um dos irmãos pede pra abrirem a porta.


Reconhecendo a voz de um deles novamente Marcia corre pra abrir a porta. Assim que entraram na casa as duas sai do quarto e vão pra cozinha e relatam o que viram lá fora. Os dois imediatamente se equipam com porretes e dão uma volta na casa. Mas não avistaram nada. E retornaram para dentro. Enxugaram-se, pois estavam os dois totalmente ensopados da chuva. Logo em seguida ouviram o som da roda do carro de boi entrando propriedade à dentro. Aquele silvo era evidente para eles de que se tratava realmente de seus pais chegando. Minutos depois eles apeiam do carro em frente ao galpão e ali a sua mãe aguarda o seu pai descangar a parelha de boi e os leva-lo ate o potreiro.  Pouco tempo depois ambos entraram em casa. Logo em seguida foram surpreendidos com os fatos contados pelas crianças ainda assustadas. Depois de ouvir as filhas o pai não pensou duas vezes em acreditar nelas. Em seguida deu uma bronca nos garotos por se saírem de casa o dia todo. Mesmo assim o pai tolerou as justificativas dos rapazes apenas desta vez. Mas, os proibiu de abandonar suas irmãs outra vez. Depois de por os pingos nos ís nas coisas prometeu a si próprio que não ficaria no trabalho ate tarde a parti daquela noite. E assim o cumpriu. As crianças nunca mais ficaram sozinhas. Pretexto? Seu pai e sua mãe também viam coisas.  

domingo, 5 de julho de 2015

AMANHECER MALDITO

Aconteceu em 1997. Eu residia num velho edifício de oito andares, situado numa zona muito perigosa de Porto Alegre, falo da Avenida Farrapos. Pagava aluguel há quase seis meses. O apartamento ficava no penúltimo andar. E percebia o mal ali. O lugar estava saturado de coisas ruins. O edifício possuía muitos apartamentos. Muitos estavam vazios. Motivos eu não sabia. Entre os locatários haviam muitos sujeitos mal encarados. Com exceção do senhor Otávio de 67 anos, que era o zelador. Seu apartamento ficava no andar térreo. Seu Otávio estava sempre disposto. Antes de seu horário de trabalho que começava as oito e meia, tinha o hábito de sair bem cedo pra comprar pão e o jornal Correio do Povo na padaria da rua de trás. Praticava a leitura de seu jornal matinal na sala de espera do prédio, enquanto tomava um cafezinho preto. Era viúvo há cinco anos. Tinha dois filhos e seis netos, mas todos morando na Europa. Antes de se tornar zelador, e se mudar para aquele prédio propriamente dito, seu Otávio comandava um barco pesqueiro nos tempos de outrora.  Durante o dia costumava recolher o lixo dos apartamentos, varria e passava um pano úmido nos corredores. Deixava tudo brilhando. E distribuía as correspondências nos apartamentos. Muitas vezes foi insultado por algum morador desnaturado que não gostava dessa cortesia da parte dele. Pois, cada morador deveria pegar sua correspondência. Outros reconhecendo seu mérito insistiam em lhe dá uma molhadura, mas ele negava em receber. Contentava-se com seu salario de zelador. E todos os meses o dinheiro de sua aposentadoria ele depositava no banco.  
Em seu apartamento, havia um pequeno pátio nos fundos, praticamente era o único apartamento que possuía quintal. Ali ele havia feito uma pequena horta, onde plantava de tudo. Desde chás ate hortaliças.  E sempre que alguém adoecesse a família recorria a ele.
Voltando ao meu caso. Depois de uma semana muito cansativa, numa sexta-feira, finalmente havíamos conseguido entregar uma das minhas obras, num total de três. Paguei a Maneco o salario de sua semana e o deixei em sua casa, em Gravataí. Muito longe por sinal. Mas, como Maneco era minha equipe, eu o valorizava.
Planejava naquele fim de semana fazer uma viagem ate a chácara de meus pais na pequena cidade de Mormaço, cidade vizinha de Soledade. Pretendia sossegar-me um pouco e pensava em procurar algumas terras à venda pela região.
Naquela sexta-feira, após entrar na garagem do prédio onde eu morava, guardei o carro e me dirigi até o elevador. Percebi que ele estava parado no sétimo andar. Por coincidência era o meu andar. Achei que fosse algum vizinho, sei lá. Pois havia mais três moradores além de mim. Após quase três minutos de espera finalmente o elevador desceu. Já estava ficando impaciente, por pouco não fui pela escada, já que queria tomar uma ducha e comer alguma coisa, pois estava morto de fome.
Quando o elevador abriu, me deparei com o meu vizinho Carlão do apartamento de frente ao meu. Não havia me dado conta de que estava bloqueando sua passagem. Civilizado, quis cumprimenta-lo e sair do seu caminho, mas antes que isso acontecesse ferozmente o cara esbarra em mim atravancando caminho pra sair do elevador e se dirige para a garagem.             - Maldito! – Pensei.
E com o cantar dos pneus pude averiguar que ele havia saído do edifício. Após passar por aquele atrito físico com meu vizinho subi para o meu apto.  Tranquei a porta. Deixei a bolsa com minhas roupas do serviço em cima do sofá. Coloquei a chave do carro no barzinho de centro. Depois fui para o banheiro tomar uma ducha. Mais tarde, preparei um jantar. Liguei o pequeno televisor colorido que ficava sobre o guarda-louça. Minutos depois estava jantando enquanto assistia o telejornal.  
Mais tarde fui pra sala continuar a leitura de um livro recém-comprado. Sentei-me no meu velho sofá de apenas um lugar da marca Simbal Florença em tecido Suede que havia adquirido em um brick na Avenida João Pessoa.  Já era umas dez horas da noite. Estava quente. Então liguei o ventilador que ficava no canto da sala. Sentei-me naquele sofá, que por sinal sempre muito confortável, muito pratico, se tivesse um banquinho à frente para poder esticar as pernas e arriar os pés, seria perfeito!
Volta e meia minha leitura era interrompida pelo barulho da rua a frente do prédio. A janela do meu quarto ficava de frente pra essa rua. Havia alguns bares noturnos que funcionavam nela, onde eram frequentados por todo o tipo de indivíduos. Podia ouvir brigas, tiros e sirenes quase todas as noites. 
Eu pretendia me mudar dali o mais rápido possível e também aconselhava seu Otávio a fazer o mesmo. Desejava viver num lugar pacato assim que eu tivesse condições financeiras. De preferencia me mudar para uma chácara no interior. Criar umas galinhas e quem sabe ter uma vaquinha de leite. Cultivar algumas hortaliças. Essas coisas que se pode fazer num sitio. Já estava cansado de viver na cidade. Queria tranquilidade.
Um pouco irritado com aquele barulho acabei desistindo de ler o livro. Terminei indo para meu quarto, liguei o radio bem baixinho, pois o único ruído que me animava era o do meu pequeno radio a pilha. Reverenciava a programação noturna da radio gaúcha. Depois desliguei a lâmpada e fechei os olhos ideando meu roteiro do dia seguinte, pois pretendia passar bem cedo no Tumelero da Assis Brasil pra orçar umas tintas, pois me mudaria dali em breve e teria que entregar o apto pintado.
No dia seguinte.
Despertei com a sensação de estar ouvindo trovões. Apesar de ter tido uma excelente noite de sono, fiquei preocupado com a possível chuva pra aquele dia. Por que o para-brisa do meu carro estava com problemas. Olho no relógio e percebo que já são sete e vinte da manha. Dou um pulo de minha cama e dou uma espiada na janela do quarto e noto que o céu estava sombrio, com nuvens escuras e muitos relâmpagos para as bandas de Viamão e vinham para o lado de Porto Alegre.
Levei o radio pra cozinha, pois quase que diariamente durante anos da minha vida tinha o habito de ouvir a radio Guaíba no café da manha. Então mal havia colocado a chaleira de água no fogão quando ouço a campainha do Carlão tocar. Fiquei em silencio, por alguns segundos. Mas não resisti e fui ate a minha porta pé por pé espiar pelo olho magico. Era o Sr. Luiz, o sindico. De todos os síndicos, aquele da ocasião ninguém no prédio gostava. Pois o homem estava sempre fechado. Era incontestável.
Carlão parecia não estar em casa, então o sindico olha pra minha porta por alguns segundos, mas decidiu ir embora. Ufa! Pensei. Visto que sempre que ele vinha ate a porta de um morador era pra fazer reclamações ou cobrar dinheiro. Ainda bem que eu não havia ligado à lâmpada da sala, senão o sujeito poderia ter me visto. Ele havia articulado alguma coisa, mas não ouvi o que era. Volto para a cozinha e pela janela basculante vejo que as nuvens alcançaram o centro de Porto Alegre. Estava noite em plena manha. Na sequencia ouvi o chiar da chaleira fervendo. Pensei. Nossa! O tempo está voando, então passei o café.
Enquanto saboreava o café me rondava pensamentos de que precisava concluir os meus compromissos daquele dia. Pois, quando eu me mudar do apartamento, pelo menos deveria deixa-lo pintado. Era a lei do síndico do prédio. Passei a ouvir trovoes lá fora. Era um temporal avisando que estava por vir. Lembrei que o que limpador do para-brisa estava estragado. Eles não estavam sincronizados e tinha que ir depressa até uma autopeça pra resolver isso.  Esqueci-me de consultar o clima para aqueles dias, realmente fiquei surpreso com aquele temporal, que de certo modo iria me atrapalhar um pouco, especialmente a minha viagem.
Substituí minha roupa, peguei um guarda-chuva e peguei o elevador. Já no térreo, ao acessar a porta que dava para a garagem, seu Otávio se encontrava ali parado olhando pra mim com cara de poucos amigos.
- Vai viajar Moacir? – perguntou ele com tom estranho.
- Não. Eu vou ate a ferragem orça umas tintas. Mas antes vou ter que passar numa autopeças substituir o para-brisa, que está quebrado.
- Pois é. Nesse temporal que está vindo, não é seguro ficar sem esse utensilio. Mas me diz, tu vai se mudar? – Indagou.
-Pretendo. E por isso vou ver quanto vou ter que gastar pra deixar o lugar hehe – Respondi sorrindo.
-Concordo. Mas, posso estar aposentado, mas nada me evita de apanhar uns biscates de pintura hehe! – Disse ele rindo.
- Podemos conversar depois. Então até depois seu Otávio! – Respondi já entrando no carro.
- Até.
Saí do prédio. Olhei para o céu e vi nuvens negras. E trazendo com elas muitos relampejos. Aquela tempestade seria tensa e perigosa. Corri então ate a zona norte, no bairro Sarandi numa loja de um amigo de confiança. Mas ao chegar à loja, vi que estava fechada. Muito deserto na volta também. Lamentei muito.  Então segui pela Assis Brasil e acabei desembocando em Cachoeirinha. Para a minha sorte bem no inicio da cidade havia uma loja aberta. Então fiz o serviço com eles. Mal havia entrado no carro pra voltar pra Porto Alegre e começa a chover.
Estando de volta a Assis Brasil, em meio aquela chuvarada toda, decido sacar um dinheiro no caixa eletrônico da Caixa Federal onde tinha uma conta corrente. Sempre era bom ter dinheiro vivo na mão. Parei no estacionamento do mesmo. Armei o guarda-chuva e entrei no banco e tirei quatrocentos reais no caixa eletrônico, depois sai dali, porque mesmo sendo 1999. Eu poderia ser assaltado. As famosas saidinhas de banco já aconteciam daquele tempo. Mas tudo ocorreu bem.  
Mais tarde passei no Tumelero da Assis Brasil. Como o apartamento tinha em torno de 140 metros quadrados, o vendedor me indicou que eu deveria usar cerca de três latas de 18 litros cada. O cálculo passou de seiscentos reais. Eu então resolvi levar uma lata de 18 litros de selador para dar um fundo nas paredes. Sobraram-me alguns reais na carteira. Pensei, assim que achar um lugar melhor pra trocar por meu apto aí resolveria comprar o restante das tintas.
 Já se aproximava do meio dia, decidi almoçar numa das lanchonetes da rodoviária de Porto Alegre. Deixei meu carro num estacionamento pago bem na frente da estação.
Fiquei num daqueles bares do segundo andar de frente as docas de embarque da Unesul, no andar superior. A visão era agradável. Havia muitas pessoas embarcando para diversos lugares do estado gaúcho e catarinense a passeios, negócios, trabalhos e outros. Solicitei o cardápio do lugar e pedi um bife a cavalo ao garçom. Cerca de vinte minutos foi a minha espera. Pedi uma Pepsi bem gelada pra acompanhar. A chuva estava forte ainda e os estrondos tremiam o ar. Depois de almoçar e pagar pela refeição no caixa, decidi fazer um passeio pela estação. Olhei vitrines das lojas de suvenir, olhei as linhas das agencias, olhei as pessoas e depois me retirei do ambiente. Cruzei a avenida onde ficavam os taxis vermelhos e me dirigi para o estacionamento pegar o carro. Paguei uma tarifa meio amarga por um pouco mais de uma hora e saí, pois tinha que me aprontar pra viajar. Decidi que viajaria mesmo com aquele dilúvio.
Quando cheguei de volta ao prédio não vi seu Otavio que costumava ficar sentado na poltrona do saguão de espera na entrada do edifício. Subi ao apartamento e deitei-me no sofá um pouquinho pra tirar um cochilo e apaguei.  Estava tão cansado.
Acordei nos quarenta minutos seguintes com alguém bater incessantemente em minha porta. As batidas eram violentíssimas.  
- Calma. Já vou! – gritei da sala. Corri até a porta. Olhei antes pelo olho magico e vi que se tratava do seu Otávio. Achei que talvez ele quisesse falar do serviço de pintura que ele queria pegar no apto. Mas, para a minha surpresa, ao abrir a porta o corredor estava deserto.
Olhei na porta do elevador, mas não havia nenhuma evidencia de ter sido usado por alguém. Achei aquilo estranho. Decidi então ver na escadaria atrás da porta corta fogo. Talvez ele tivesse limpando as escadas, pois era seu trabalho. Ao abri-la e passado para o outro lado da porta, a lâmpada se ascendeu, desci uns oito degraus ate o descanso. Olhei para os andares abaixo entre os vãos dos lances da escada e repente alguma coisa sinistra estava pra acontecer, uma voz humana destorcida ecoa dos degraus abaixo subindo para onde eu estava. Fiquei neutralizado de medo. Quis fugir e ao me virar para a porta, que estava a quatro metros de mim, a luz se apaga para piorar a situação. Fiquei arrepiado dos pés a cabeça. Pois me encontrava na escuridão. E uma figura branca surgiu flutuando no patamar da escada e começou a se aproximar de mim lentamente. Parecia ser uma mulher com um longo vestido esfuziante. Tentei puxar a porta, mas ela estava presa. De repente não conseguia me mexer, pois meu corpo ficou paralisado e minha voz falhava. Pensei em Deus naquele instante. Foi quando de repente as lâmpadas da escadaria se ascendem e aquele espectro some com a escuridão.
Alguém havia ligado às luzes em algum andar do edifício pra largar o seu lixo. Eu tinha sido salvo por um anonimato. Aproveitei a chance pra sair de lá bem depressa, pois sabia que as lâmpadas da escada iriam apagar em alguns segundos por causa do sensor de presença com fotocélula.
Depois de passado o susto, voltei rápido para o meu apartamento. Estava muito nervoso. Minhas mãos estavam tremulas e minhas pernas estavam anêmicas. Era como se aquilo tivesse absorvido minha energia vital pra se alimentar. A sensação de medo era horrível. Bebi um copo de água com açúcar pra ver se me tranquilizava, mas não havia dado certo. Então servi uma dose de vermute que tinha como enfeite na minha estante.
Passei a mão no telefone e liguei para o apartamento do seu Otavio. Chamou algumas vezes, mas ele não atendeu. Fui então para o sofá e pensei no que tinha acontecido. De repente me assustei com o som da campainha tocando. Apanhei meu taco de sinuca feito com madeira de pinho canadense e me aproximei da porta. Olhei pelo olho magico e para o meu alivio era o Síndico Luiz. Guardei o taco e abri a porta.
- Bom tarde Moacir. Sei que não tem nada de bom se levar em consideração o toró que está caindo lá fora. Vim te trazer essa notificação. A garagem precisa receber uma pintura nova e a rede de gás tem que ser reformada. Vote ate terça feira para sim ou não das reformas. – disse ele com cara de poucos amigos.
- Ok. – agradeci pegando o envelope que ele me estendia.
- Tu viste o seu Otavio por aí? Ele é um irresponsável. Já venho batendo na porta dele há dois dias. Agora deu pra fazer birra comigo. Só o que me faltava ter que demiti-lo.
O síndico me disse aquelas coisas se retirou sem ao menos se despedir e continuou a distribuição das cópias da mesma notificação aos outros moradores. Muitos moradores não estavam em casa, então o documento era passado por baixo da porta. Eu não queria concordar com ele, mas infelizmente a garagem precisava de uma pintura nova. A ultima vez que recebeu tinta foi em 1988, segundo o seu Otávio. E na questão da rede de gás, nunca tive problemas de vazamentos no meu apto. Mas, não sei sobre os outros apartamentos.
E por incrível que pareça, a visita do síndico veio a calhar, pois aquele nervosismo que eu estava sentindo ate a pouco, tinha terminado.
Enfim, sentei-me no sofá de três lugares e abri o envelope. Mas para o meu desapontamento, a reunião do síndico era para as nove da amanha do dia seguinte na garagem. Poxa! A minha viagem daquele dia tive que adiar pra depois da reunião.
Mais tarde desci no térreo e fui ate a porta do apartamento do seu Otávio, pra falar a respeito da experiência sobrenatural que tive. E gostaria de ver se sabia de alguma historia que possivelmente teria acontecido do prédio e se ele havia realmente tocado em minha porta naquela tarde.
Apertei a sua campainha diversas vezes, mas ele não atendeu. Bati com a mão também, mas sem sucesso. Então um pouco abalado retornei ao apartamento. Pois, não tinha com quem conversar. Só havia a seu Otávio a quem recorrer. Já com os outros inquilinos eu não tinha nenhum tipo de relação a não ser um olá.
Fechei a porta. E nem jantei nem nada. Fiquei pensando, eu havia conversado com ele naquela manha ainda. Não entendia seu sumiço. Fiquei um pouco na sala e depois fui dormir. Tinha que descansar, pois depois da reunião da manha seguinte iria dirigir por quatro horas.
Por precaução deixei as luzes acessas. Fechei os olhos na intenção de cair no sono, mas estava sendo assombrado pelas lembranças da mulher na escada e lentamente sendo tomado por uma sensação de terror e tristeza ao mesmo tempo.  Escutei um ruído estranho na cozinha como se alguém tivesse puxado uma das cadeiras e senti que alguma coisa estava à espreita só a me observar. Decididamente peguei a minha pequena bíblia do primeiro testamento que estava na gaveta do bidê e abri em salmos 91. Deixei-a aberta próxima de mim. Não levou muito e a sensação de medo estava indo embora. Orei para Nosso Senhor me tirar daquela situação e de repente aquela emanação maléfica que pairava no meu quarto havia ido embora. Sem dúvida eu não fiquei mais aterrorizado. Mantive-me quieto e deitado em minha cama. Sem perceber acabei adormecendo ao som daquela chuva.
No dia seguinte. Nenhum sinal de chuva lá fora. Não liguei o radio naquela manhã. Pensei. Ótimo. Pois teria uma viagem tranquila. Depois de tomar café já deixei tudo preparado pra viagem. Larguei a mochila ao lado da porta de entrada. Dei uma olhada na rua pelas janelas.
Prontamente examinei a minha geladeira e vi que não tinha mais carne, só tinha presunto e queijo. E na dispensa também faltava tudo, então tinha que ao supermercado que ficava na rua de trás pra comprar o que faltava. Queria jantar em casa como o de costume quando não havia problemas.  Então saí de meu apartamento e chamei o elevador. 
Enquanto esperava ouço zunzunzuns vindo lá do térreo.  Achei um tanto estranho. De repente sinto um calafrio e ao mesmo instante vejo um vulto sair da porta da escadaria. Estico meu pescoço na tentativa de ver melhor, tomei um susto, pois era o sr. Otávio fazendo uma faxina no fim do corredor do meu andar. Acenei, mas ele não me viu. Aquilo me saiu um tanto esquisito. Porém antes que eu fosse o seu encontro, o elevador chega ao andar abrindo a porta. Então corro para pegá-lo, e ao que me viro de volta pra porta de entrada levo outro susto, pois a sr. Otávio passa bem na entrada seguindo com a limpeza e sorrindo pra mim.  Então a porta se fecha.
Me pego a pensar nesse surgimento dele assim de repente. Alguns segundos depois o elevador chega ao térreo. E no abrir da porta, um odor alastrar o ar puro do elevador. Confuso com aquele mau cheiro, busquei a resposta do que estava acontecendo, noto os raios de luz do giroflex de uma viatura do IML em frente à portaria do prédio, o mesmo iluminava tudo. No corredor que dava para o apartamento do seu Otávio havia o movimento de muitos moradores do conjunto, todos estavam usando máscaras e panos em seus narizes, alguns passavam mal. Andei entre essas pessoas até a porta do apartamento, ouvi o zunido de centenas de moscas varejeiras e para o meu espanto, caído morto na sala já em estado de decomposição estava o corpo do seu Otávio. Haviam lhe encontrado naquela manha depois de sentirem o mau cheiro vindo do apartamento.
Eu estava abatido como a maioria dos moradores do prédio. Ninguém estava acreditando no que acontecera, pois ele era cheio de vida. Sempre sorridente. Aquilo foi indigesto pra mim. Pois, eu havia falado com ele na entrada da garagem no dia anterior e há alguns minutos atrás o vi limpando o corredor do meu andar.
Transtornado, me afastei do lugar por também não aguentar o cheiro de podre. Fiquei afastado e assistindo os policiais isolarem o local com a fita de segurança para que os peritos realizassem seu trabalho.
Voltei para meu apartamento, havia perdido a fome depois daquilo. Eu estava confuso com tudo aquilo. Nunca na minha vida tinha tido tal experiência sobrenatural. Nem acreditava em fantasmas. Será que ele quis me dizer alguma coisa? Talvez ele quisesse me avisar do seu corpo em seu apartamento. Senti um arrepio na espinha quando comecei a pensar nisso. De repente ouço o som da cortina do Box do meu banheiro ser puxada. Fiquei arrepiado na hora. Apanhei meu bastão que eu tinha na cozinha, criei coragem e me esgueirando pela parede fui ate o banheiro. Deparei-me com a cortina aberta do mesmo jeito que eu a havia deixado... Mas, aquela foi a ultima vez que ouvi e vi coisas. Alguns dias depois acabei me mudando pra Santa Maria-RS por motivos de trabalho.