Aconteceu em 1997. Eu residia num velho edifício de oito
andares, situado numa zona muito perigosa de Porto Alegre, falo da Avenida
Farrapos. Pagava aluguel há quase seis meses. O apartamento ficava no penúltimo
andar. E percebia o mal ali. O lugar estava saturado de coisas ruins. O
edifício possuía muitos apartamentos. Muitos estavam vazios. Motivos eu não
sabia. Entre os locatários haviam muitos sujeitos mal encarados. Com exceção do
senhor Otávio de 67 anos, que era o zelador. Seu apartamento ficava no andar
térreo. Seu Otávio estava sempre disposto. Antes de seu horário de trabalho que
começava as oito e meia, tinha o hábito de sair bem cedo pra comprar pão e o jornal
Correio do Povo na padaria da rua de trás. Praticava a leitura de seu jornal matinal
na sala de espera do prédio, enquanto tomava um cafezinho preto. Era viúvo há
cinco anos. Tinha dois filhos e seis netos, mas todos morando na Europa. Antes
de se tornar zelador, e se mudar para aquele prédio propriamente dito, seu
Otávio comandava um barco pesqueiro nos tempos de outrora. Durante o dia costumava recolher o lixo dos
apartamentos, varria e passava um pano úmido nos corredores. Deixava tudo
brilhando. E distribuía as correspondências nos apartamentos. Muitas vezes foi
insultado por algum morador desnaturado que não gostava dessa cortesia da parte
dele. Pois, cada morador deveria pegar sua correspondência. Outros reconhecendo
seu mérito insistiam em lhe dá uma molhadura, mas ele negava em receber. Contentava-se
com seu salario de zelador. E todos os meses o dinheiro de sua aposentadoria
ele depositava no banco.
Em seu apartamento, havia um
pequeno pátio nos fundos, praticamente era o único apartamento que possuía
quintal. Ali ele havia feito uma pequena horta, onde plantava de tudo. Desde
chás ate hortaliças. E sempre que alguém
adoecesse a família recorria a ele.
Voltando ao meu caso. Depois de uma
semana muito cansativa, numa sexta-feira, finalmente havíamos conseguido
entregar uma das minhas obras, num total de três. Paguei a Maneco o salario de
sua semana e o deixei em sua casa, em Gravataí. Muito longe por sinal. Mas,
como Maneco era minha equipe, eu o valorizava.
Planejava naquele fim de semana fazer
uma viagem ate a chácara de meus pais na pequena cidade de Mormaço, cidade
vizinha de Soledade. Pretendia sossegar-me um pouco e pensava em procurar
algumas terras à venda pela região.
Naquela sexta-feira, após entrar
na garagem do prédio onde eu morava, guardei o carro e me dirigi até o elevador.
Percebi que ele estava parado no sétimo andar. Por coincidência era o meu
andar. Achei que fosse algum vizinho, sei lá. Pois havia mais três moradores além
de mim. Após quase três minutos de espera finalmente o elevador desceu. Já
estava ficando impaciente, por pouco não fui pela escada, já que queria tomar
uma ducha e comer alguma coisa, pois estava morto de fome.
Quando o elevador abriu, me
deparei com o meu vizinho Carlão do apartamento de frente ao meu. Não havia me
dado conta de que estava bloqueando sua passagem. Civilizado, quis cumprimenta-lo
e sair do seu caminho, mas antes que isso acontecesse ferozmente o cara esbarra
em mim atravancando caminho pra sair do elevador e se dirige para a garagem. - Maldito! – Pensei.
E com o cantar dos pneus pude averiguar
que ele havia saído do edifício. Após passar por aquele atrito físico com meu
vizinho subi para o meu apto. Tranquei a
porta. Deixei a bolsa com minhas roupas do serviço em cima do sofá. Coloquei a
chave do carro no barzinho de centro. Depois fui para o banheiro tomar uma
ducha. Mais tarde, preparei um jantar. Liguei o pequeno televisor colorido que
ficava sobre o guarda-louça. Minutos depois estava jantando enquanto assistia o
telejornal.
Mais tarde fui pra sala continuar
a leitura de um livro recém-comprado. Sentei-me no meu velho sofá de apenas um
lugar da marca Simbal Florença em tecido Suede que havia adquirido em um brick
na Avenida João Pessoa. Já era umas dez
horas da noite. Estava quente. Então liguei o ventilador que ficava no canto da
sala. Sentei-me naquele sofá, que por sinal sempre muito confortável, muito
pratico, se tivesse um banquinho à frente para poder esticar as pernas e arriar
os pés, seria perfeito!
Volta e meia minha leitura era
interrompida pelo barulho da rua a frente do prédio. A janela do meu quarto
ficava de frente pra essa rua. Havia alguns bares noturnos que funcionavam nela,
onde eram frequentados por todo o tipo de indivíduos. Podia ouvir brigas, tiros
e sirenes quase todas as noites.
Eu pretendia me mudar dali o mais
rápido possível e também aconselhava seu Otávio a fazer o mesmo. Desejava viver
num lugar pacato assim que eu tivesse condições financeiras. De preferencia me
mudar para uma chácara no interior. Criar umas galinhas e quem sabe ter uma
vaquinha de leite. Cultivar algumas hortaliças. Essas coisas que se pode fazer
num sitio. Já estava cansado de viver na cidade. Queria tranquilidade.
Um pouco irritado com aquele
barulho acabei desistindo de ler o livro. Terminei indo para meu quarto, liguei
o radio bem baixinho, pois o único ruído que me animava era o do meu pequeno
radio a pilha. Reverenciava a programação noturna da radio gaúcha. Depois
desliguei a lâmpada e fechei os olhos ideando meu roteiro do dia seguinte, pois
pretendia passar bem cedo no Tumelero da Assis Brasil pra orçar umas tintas,
pois me mudaria dali em breve e teria que entregar o apto pintado.
No dia seguinte.
Despertei com a sensação de estar
ouvindo trovões. Apesar de ter tido uma excelente noite de sono, fiquei
preocupado com a possível chuva pra aquele dia. Por que o para-brisa do meu carro
estava com problemas. Olho no relógio e percebo que já são sete e vinte da
manha. Dou um pulo de minha cama e dou uma espiada na janela do quarto e noto
que o céu estava sombrio, com nuvens escuras e muitos relâmpagos para as bandas
de Viamão e vinham para o lado de Porto Alegre.
Levei o radio pra cozinha, pois quase
que diariamente durante anos da minha vida tinha o habito de ouvir a radio
Guaíba no café da manha. Então mal havia colocado a chaleira de água no fogão quando
ouço a campainha do Carlão tocar. Fiquei em silencio, por alguns segundos. Mas
não resisti e fui ate a minha porta pé por pé espiar pelo olho magico. Era o
Sr. Luiz, o sindico. De todos os síndicos, aquele da ocasião ninguém no prédio
gostava. Pois o homem estava sempre fechado. Era incontestável.
Carlão parecia não estar em casa,
então o sindico olha pra minha porta por alguns segundos, mas decidiu ir embora.
Ufa! Pensei. Visto que sempre que ele vinha ate a porta de um morador era pra
fazer reclamações ou cobrar dinheiro. Ainda bem que eu não havia ligado à lâmpada
da sala, senão o sujeito poderia ter me visto. Ele havia articulado alguma
coisa, mas não ouvi o que era. Volto para a cozinha e pela janela basculante vejo
que as nuvens alcançaram o centro de Porto Alegre. Estava noite em plena manha.
Na sequencia ouvi o chiar da chaleira fervendo. Pensei. Nossa! O tempo está
voando, então passei o café.
Enquanto saboreava o café me rondava
pensamentos de que precisava concluir os meus compromissos daquele dia. Pois, quando
eu me mudar do apartamento, pelo menos deveria deixa-lo pintado. Era a lei do síndico
do prédio. Passei a ouvir trovoes lá fora. Era um temporal avisando que estava
por vir. Lembrei que o que limpador do para-brisa estava estragado. Eles não
estavam sincronizados e tinha que ir depressa até uma autopeça pra resolver
isso. Esqueci-me de consultar o clima
para aqueles dias, realmente fiquei surpreso com aquele temporal, que de certo
modo iria me atrapalhar um pouco, especialmente a minha viagem.
Substituí minha roupa, peguei um
guarda-chuva e peguei o elevador. Já no térreo, ao acessar a porta que dava
para a garagem, seu Otávio se encontrava ali parado olhando pra mim com cara de
poucos amigos.
- Vai viajar Moacir? – perguntou
ele com tom estranho.
- Não. Eu vou ate a ferragem orça
umas tintas. Mas antes vou ter que passar numa autopeças substituir o
para-brisa, que está quebrado.
- Pois é. Nesse temporal que está
vindo, não é seguro ficar sem esse utensilio. Mas me diz, tu vai se mudar? – Indagou.
-Pretendo. E por isso vou ver
quanto vou ter que gastar pra deixar o lugar hehe – Respondi sorrindo.
-Concordo. Mas, posso estar
aposentado, mas nada me evita de apanhar uns biscates de pintura hehe! – Disse
ele rindo.
- Podemos conversar depois. Então
até depois seu Otávio! – Respondi já entrando no carro.
- Até.
Saí do prédio. Olhei para o céu e
vi nuvens negras. E trazendo com elas muitos relampejos. Aquela tempestade
seria tensa e perigosa. Corri então ate a zona norte, no bairro Sarandi numa
loja de um amigo de confiança. Mas ao chegar à loja, vi que estava fechada. Muito
deserto na volta também. Lamentei muito. Então segui pela Assis Brasil e acabei
desembocando em Cachoeirinha. Para a minha sorte bem no inicio da cidade havia
uma loja aberta. Então fiz o serviço com eles. Mal havia entrado no carro pra
voltar pra Porto Alegre e começa a chover.
Estando de volta a Assis Brasil, em
meio aquela chuvarada toda, decido sacar um dinheiro no caixa eletrônico da
Caixa Federal onde tinha uma conta corrente. Sempre era bom ter dinheiro vivo
na mão. Parei no estacionamento do mesmo. Armei o guarda-chuva e entrei no
banco e tirei quatrocentos reais no caixa eletrônico, depois sai dali, porque
mesmo sendo 1999. Eu poderia ser assaltado. As famosas saidinhas de banco já
aconteciam daquele tempo. Mas tudo ocorreu bem.
Mais tarde passei no Tumelero da
Assis Brasil. Como o apartamento tinha em torno de 140 metros quadrados, o
vendedor me indicou que eu deveria usar cerca de três latas de 18 litros cada.
O cálculo passou de seiscentos reais. Eu então resolvi levar uma lata de 18
litros de selador para dar um fundo nas paredes. Sobraram-me alguns reais na
carteira. Pensei, assim que achar um lugar melhor pra trocar por meu apto aí
resolveria comprar o restante das tintas.
Já se aproximava do meio dia, decidi almoçar
numa das lanchonetes da rodoviária de Porto Alegre. Deixei meu carro num
estacionamento pago bem na frente da estação.
Fiquei num daqueles bares do
segundo andar de frente as docas de embarque da Unesul, no andar superior. A
visão era agradável. Havia muitas pessoas embarcando para diversos lugares do
estado gaúcho e catarinense a passeios, negócios, trabalhos e outros. Solicitei
o cardápio do lugar e pedi um bife a cavalo ao garçom. Cerca de vinte minutos foi
a minha espera. Pedi uma Pepsi bem gelada pra acompanhar. A chuva estava forte
ainda e os estrondos tremiam o ar. Depois de almoçar e pagar pela refeição no
caixa, decidi fazer um passeio pela estação. Olhei vitrines das lojas de
suvenir, olhei as linhas das agencias, olhei as pessoas e depois me retirei do
ambiente. Cruzei a avenida onde ficavam os taxis vermelhos e me dirigi para o
estacionamento pegar o carro. Paguei uma tarifa meio amarga por um pouco mais
de uma hora e saí, pois tinha que me aprontar pra viajar. Decidi que viajaria
mesmo com aquele dilúvio.
Quando cheguei de volta ao prédio
não vi seu Otavio que costumava ficar sentado na poltrona do saguão de espera
na entrada do edifício. Subi ao apartamento e deitei-me no sofá um pouquinho
pra tirar um cochilo e apaguei. Estava
tão cansado.
Acordei nos quarenta minutos
seguintes com alguém bater incessantemente em minha porta. As batidas eram
violentíssimas.
- Calma. Já vou! – gritei da sala.
Corri até a porta. Olhei antes pelo olho magico e vi que se tratava do seu
Otávio. Achei que talvez ele quisesse falar do serviço de pintura que ele
queria pegar no apto. Mas, para a minha surpresa, ao abrir a porta o corredor
estava deserto.
Olhei na porta do elevador, mas não
havia nenhuma evidencia de ter sido usado por alguém. Achei aquilo estranho. Decidi
então ver na escadaria atrás da porta corta fogo. Talvez ele tivesse limpando
as escadas, pois era seu trabalho. Ao abri-la e passado para o outro lado da
porta, a lâmpada se ascendeu, desci uns oito degraus ate o descanso. Olhei para
os andares abaixo entre os vãos dos lances da escada e repente alguma coisa sinistra
estava pra acontecer, uma voz humana destorcida ecoa dos degraus abaixo subindo
para onde eu estava. Fiquei neutralizado de medo. Quis fugir e ao me virar para
a porta, que estava a quatro metros de mim, a luz se apaga para piorar a
situação. Fiquei arrepiado dos pés a cabeça. Pois me encontrava na escuridão. E
uma figura branca surgiu flutuando no patamar da escada e começou a se
aproximar de mim lentamente. Parecia ser uma mulher com um longo vestido
esfuziante. Tentei puxar a porta, mas ela estava presa. De repente não conseguia
me mexer, pois meu corpo ficou paralisado e minha voz falhava. Pensei em Deus
naquele instante. Foi quando de repente as lâmpadas da escadaria se ascendem e
aquele espectro some com a escuridão.
Alguém havia ligado às luzes em
algum andar do edifício pra largar o seu lixo. Eu tinha sido salvo por um
anonimato. Aproveitei a chance pra sair de lá bem depressa, pois sabia que as
lâmpadas da escada iriam apagar em alguns segundos por causa do sensor de
presença com fotocélula.
Depois de passado o susto, voltei
rápido para o meu apartamento. Estava muito nervoso. Minhas mãos estavam
tremulas e minhas pernas estavam anêmicas. Era como se aquilo tivesse absorvido
minha energia vital pra se alimentar. A sensação de medo era horrível. Bebi um
copo de água com açúcar pra ver se me tranquilizava, mas não havia dado certo.
Então servi uma dose de vermute que tinha como enfeite na minha estante.
Passei a mão no telefone e liguei
para o apartamento do seu Otavio. Chamou algumas vezes, mas ele não atendeu. Fui
então para o sofá e pensei no que tinha acontecido. De repente me assustei com
o som da campainha tocando. Apanhei meu taco de sinuca feito com madeira de
pinho canadense e me aproximei da porta. Olhei pelo olho magico e para o meu
alivio era o Síndico Luiz. Guardei o taco e abri a porta.
- Bom tarde Moacir. Sei que não
tem nada de bom se levar em consideração o toró que está caindo lá fora. Vim te
trazer essa notificação. A garagem precisa receber uma pintura nova e a rede de
gás tem que ser reformada. Vote ate terça feira para sim ou não das reformas. –
disse ele com cara de poucos amigos.
- Ok. – agradeci pegando o
envelope que ele me estendia.
- Tu viste o seu Otavio por aí? Ele
é um irresponsável. Já venho batendo na porta dele há dois dias. Agora deu pra
fazer birra comigo. Só o que me faltava ter que demiti-lo.
O síndico me disse aquelas coisas
se retirou sem ao menos se despedir e continuou a distribuição das cópias da
mesma notificação aos outros moradores. Muitos moradores não estavam em casa,
então o documento era passado por baixo da porta. Eu não queria concordar com
ele, mas infelizmente a garagem precisava de uma pintura nova. A ultima vez que
recebeu tinta foi em 1988, segundo o seu Otávio. E na questão da rede de gás,
nunca tive problemas de vazamentos no meu apto. Mas, não sei sobre os outros
apartamentos.
E por incrível que pareça, a
visita do síndico veio a calhar, pois aquele nervosismo que eu estava sentindo
ate a pouco, tinha terminado.
Enfim, sentei-me no sofá de três
lugares e abri o envelope. Mas para o meu desapontamento, a reunião do síndico
era para as nove da amanha do dia seguinte na garagem. Poxa! A minha viagem
daquele dia tive que adiar pra depois da reunião.
Mais tarde desci no térreo e fui
ate a porta do apartamento do seu Otávio, pra falar a respeito da experiência
sobrenatural que tive. E gostaria de ver se sabia de alguma historia que
possivelmente teria acontecido do prédio e se ele havia realmente tocado em
minha porta naquela tarde.
Apertei a sua campainha diversas
vezes, mas ele não atendeu. Bati com a mão também, mas sem sucesso. Então um
pouco abalado retornei ao apartamento. Pois, não tinha com quem conversar. Só havia
a seu Otávio a quem recorrer. Já com os outros inquilinos eu não tinha nenhum
tipo de relação a não ser um olá.
Fechei a porta. E nem jantei nem
nada. Fiquei pensando, eu havia conversado com ele naquela manha ainda. Não
entendia seu sumiço. Fiquei um pouco na sala e depois fui dormir. Tinha que
descansar, pois depois da reunião da manha seguinte iria dirigir por quatro
horas.
Por precaução deixei as luzes
acessas. Fechei os olhos na intenção de cair no sono, mas estava sendo
assombrado pelas lembranças da mulher na escada e lentamente sendo tomado por uma
sensação de terror e tristeza ao mesmo tempo.
Escutei um ruído estranho na cozinha como se alguém tivesse puxado uma
das cadeiras e senti que alguma coisa estava à espreita só a me observar. Decididamente
peguei a minha pequena bíblia do primeiro testamento que estava na gaveta do
bidê e abri em salmos 91. Deixei-a aberta próxima de mim. Não levou muito e a
sensação de medo estava indo embora. Orei para Nosso Senhor me tirar daquela
situação e de repente aquela emanação maléfica que pairava no meu quarto havia
ido embora. Sem dúvida eu não fiquei mais aterrorizado. Mantive-me quieto e deitado
em minha cama. Sem perceber acabei adormecendo ao som daquela chuva.
No dia seguinte. Nenhum sinal de
chuva lá fora. Não liguei o radio naquela manhã. Pensei. Ótimo. Pois teria uma
viagem tranquila. Depois de tomar café já deixei tudo preparado pra viagem. Larguei
a mochila ao lado da porta de entrada. Dei uma olhada na rua pelas janelas.
Prontamente examinei a minha
geladeira e vi que não tinha mais carne, só tinha presunto e queijo. E na
dispensa também faltava tudo, então tinha que ao supermercado que ficava na rua
de trás pra comprar o que faltava. Queria jantar em casa como o de costume
quando não havia problemas. Então saí de
meu apartamento e chamei o elevador.
Enquanto esperava ouço zunzunzuns
vindo lá do térreo. Achei um tanto
estranho. De repente sinto um calafrio e ao mesmo instante vejo um vulto sair
da porta da escadaria. Estico meu pescoço na tentativa de ver melhor, tomei um
susto, pois era o sr. Otávio fazendo uma faxina no fim do corredor do meu
andar. Acenei, mas ele não me viu. Aquilo me saiu um tanto esquisito. Porém antes
que eu fosse o seu encontro, o elevador chega ao andar abrindo a porta. Então corro
para pegá-lo, e ao que me viro de volta pra porta de entrada levo outro susto, pois a sr. Otávio passa bem na entrada seguindo com a limpeza e sorrindo pra mim. Então a porta se fecha.
Me pego a pensar nesse surgimento dele assim de repente. Alguns segundos depois o elevador chega ao térreo. E no
abrir da porta, um odor alastrar o ar puro do elevador. Confuso com aquele mau
cheiro, busquei a resposta do que estava acontecendo, noto os raios de luz do
giroflex de uma viatura do IML em frente à portaria do prédio, o mesmo iluminava tudo. No corredor que dava para o apartamento do seu Otávio havia o movimento de muitos moradores do conjunto, todos estavam usando máscaras
e panos em seus narizes, alguns passavam mal. Andei entre essas pessoas até a
porta do apartamento, ouvi o zunido de centenas de moscas varejeiras e para o
meu espanto, caído morto na sala já em estado de decomposição estava o corpo do seu Otávio.
Haviam lhe encontrado naquela manha depois de sentirem o mau cheiro vindo do
apartamento.
Eu estava abatido como a maioria
dos moradores do prédio. Ninguém estava acreditando no que acontecera, pois ele era cheio de vida. Sempre sorridente. Aquilo foi indigesto pra mim. Pois, eu
havia falado com ele na entrada da garagem no dia anterior e há alguns minutos atrás o vi limpando o corredor do meu andar.
Transtornado, me afastei do
lugar por também não aguentar o cheiro de podre. Fiquei afastado e assistindo
os policiais isolarem o local com a fita de segurança para que os peritos
realizassem seu trabalho.
Voltei para meu apartamento,
havia perdido a fome depois daquilo. Eu estava confuso com tudo aquilo. Nunca na minha vida tinha
tido tal experiência sobrenatural. Nem acreditava em fantasmas. Será que ele quis me dizer alguma coisa? Talvez ele quisesse me avisar do seu corpo em seu apartamento. Senti um arrepio na espinha quando comecei a pensar nisso. De repente ouço o som da cortina do Box do meu banheiro ser
puxada. Fiquei arrepiado na hora. Apanhei meu bastão
que eu tinha na cozinha, criei coragem e me esgueirando pela parede fui ate o
banheiro. Deparei-me com a cortina aberta do mesmo jeito que eu a havia deixado... Mas, aquela foi a ultima vez que ouvi e vi coisas. Alguns dias depois acabei me mudando pra Santa Maria-RS por motivos de trabalho.